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Resenha de Filme: A Bela que Dorme (Bella Addormentata)

9 de julho de 2013 0 Comente Aqui!
Certas discussões sociais sempre levantarão polêmicas e até mesmo parecem não encontrar uma resposta correta, principalmente quando envolvem morte, família, religião e política. Será que um ser humano deveria ter o direito de tirar a própria vida? E quando não tiver mais ciência de si? Sendo apenas um corpo mantido por aparelhos, seus familiares podem ter autonomia para tal? E para a religião, será sempre um pecado mortal, digno do inferno? Não existe ambiguidade? E qual o papel do sistema político de uma país perante tal problemática? No fim, a morte é a libertação de um estado físico irreversível? Ou um ato hediondo desesperado? Nem sempre consegue ser assertivo em sua abordagem, mas esses são os temas a serem discorridos em A Bela que Dorme, premiado filme do diretor italiano Marco Bellocchio (Irmãs Jamais, 2010). 

O rígido mosaico montado em A Bela que Dorme gira em torno de uma mulher, Eluana Englaro, há dezessete anos em estado vegetativo. No entanto, Eluana não é um personagem na trama, mas um simbolismo que motiva o paradoxal estado de espírito - um personagem acusa o cinismo - do povo italiano que observa seu governo votar uma controversa lei que pode mudar o rumo dos pacientes tratados pelo sistema de saúde. Nesses dias em que se acompanha o desenrolar da votação para a lei, a narrativa conduz o espectador por uma ciranda de personagens que a margeiam. Alguns com problemas semelhantes, uns com considerações a favor, outros contra. E apesar das diferenças naturais, sentimentos sinceros pautam as atitudes, como o sofrimento, compaixão, desespero, ódio e amor. A indiferença - pontualmente - acaba não encontrando lugar.

Em A Bela que Dorme, um senador, Uliano Beffardi (Toni Servillo), vive um dilema pois seu partido é a favor da emenda. Nesse meio tempo em que reflete sobre seu papel, precisa lidar com problemas relativos a sua filha Maria (Alba Rohrwacher). Uma moça religiosa que se envolve com um rapaz, Roberto (Michele Riondino), que parece ser o único capaz de domar os instintos de seu irmão bipolar, Pippin (Fabrizio Falco). De um outro lado, uma famosa atriz vivida pela sempre eficiente Isabelle Huppert mantém vigília por sua filha, em estado vegetativo tal qual Eluana. Seu filho, Frederick (Brenno Placido), aspirante a ator, tentar destituir a mãe do árduo trabalho e retomar sua carreira. E a última sub-trama, possivelmente a mais frágil, envolve um médico do sistema público, Doutor Pallido (Pier Giorgio Bellochio, filho do diretor), que se vê impelido a cuidar de uma paciente, Rossa (Maya Sansa), viciada em drogas e com sérias tendências suicidas.

O panorama de A Bela que Dorme é intenso, pouco amistoso, repleto de conflitos e o regozijo parece mesmo impossível. A trilha sonora de notas profundamente melancólicas não esconde o viés pesaroso do filme. E ainda que as sub-tramas se façam suficientemente interessantes, com personagens trabalhados com alguma profundidade - como no caso da atriz reclusa interpretada por Isabelle Huppert ou o senador perturbado de Toni Servillo -, não trazem uma unidade convincente para o trabalho de Marco Bellochio. Tudo parece meio solto. Uma analise mais intempestiva dirá que o filme é meio perdido. Creio que talvez a intenção do diretor fosse mesmo dar a obra um tom naturalista e extremamente rígido no tocante a encenação dos fatos, como até já elucidei em algum momento desse texto. Entretanto, ainda que não torne o resultado maçante, tira um pouco de ritmo e fica parecendo que o desenlace foi meio apressado.


Ficha Técnica:
A Bela que Dorme (Bella Addormentata).
Direção: Marco Bellochio.
Roteiro: Marco Bellochio, Veronica Raimo, Stefano Rulli.
Duração: 115 min.
País: Itália/França.
Ano: 2012.
Elenco: Toni Servillo, Alba Rohrwacher, Michele Riondino, Fabrizio Falco, Isabelle Huppert, Brenno Placido, Pier Giorgio Bellochio, Maya Sansa.

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