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Resenha de Filme: Segredos de Sangue (Stoker)

13 de junho de 2013 0 Comente Aqui!

A estreia no cinema norte-americano do cineasta sul-coreano Chan-Wook Park era esperada tanto por crítica quanto por público. Principalmente por Park ser um dos nomes mais significativos do recente cinema asiático. Além ainda de ter realizado alguns dos filmes - Mr. Vingança (2002), Oldboy (2003), Lady Vingança (2005) e Sede de Sangue (2009) - mais comentados e reverenciados da primeira década do século XXI. Poderia até ter trabalhado em solo ianque antes, mas creio que Park esperou o momento mais adequado. Tendo a temática da vingança como uma das mais caras em sua filmografia, Segredos de Sangue vai um pouco a contramão do que se esperava. Não é um filme dado aos histrionismos de outrora, é menor em seu caráter e existe um comedimento razoável, dosado pela atuação categoricamente fria dos co-protagonistas - Mia Wasikowska e Matthew Goode. Entretanto, o diretor não deixa de lado os signos que marcaram seu estilo de filmar. 

Com propriedade, Chan-Wook Park se apossa do primeiro roteiro de Wentworth Miller (aquele mesmo da finada série Prison Break). E desde o primeiro frame faz presente o seu apuro estético, marcado pelo uso de vistosas elipses que asseguram o mistério e estranhamento necessário a uma narrativa que vai ganhando volume durante o desenrolar da enxuta trama. Não dá para situar Segredos de Sangue em um mundo real, seria bobagem e desperdício apontar certos momentos controversos como deméritos. Tudo é propositalmente surreal. O filme é como um conto transviado, com pitadas de Edgar Allan Poe, onde a maldade pode ser vista como uma característica consanguínea. Talvez por isso Park tenha afirmado que procurou se basear na atmosfera de Drácula de Bram Stoker. O próprio título original - Stoker - surge como uma analogia. Mas Segredos de Sangue não é um filme de vampiros. Apenas utiliza da semelhante sensação de deslocamento, abstraindo qualquer senso de princípio, para construir sua história amoral. Nesse quadro, os personagens secundários são meros joguetes, presas.

A trama de Segredos de Sangue começa especialmente trágica para a protagonista India Stoker (Mia Wasikowska - Os Infratores). No dia em que comemoraria seu aniversário, seu pai, Richard (Dermot Mulroney - J. Edgar), um aristocrata local, é encontrado morto após um violento acidente. Logo após o enterro, seu tio Charles (Matthew Goode), parente que India nunca antes tinha ouvido falar, aparece e resolve se instalar na imponente casa da família. A jovem recebe a ideia meio a contragosto, mas sua mãe, Evelyn (Nicole Kidman - Reféns), vê a presença do tio como bem vinda. E ainda parece nutrir algum desejo carnal pela enigmática figura daquele homem sedutor, sempre disposto a ajudar. Os dias vão passando e India começa a descobrir detalhes do passado obscuro de Charles, principalmente depois que recebe a visita de sua tia Gwedolyn (Jacki Weaver - O Lado Bom da Vida), em rápida aparição, mas pontual. E apesar de certas revelações apontarem para sordidez do caráter de seu tio, a mocinha vai desenvolvendo uma intensa atração - sexual também - onde se descobre como mulher e deixa de lado sua porção "menina do papai".

Com essa última afirmação do paragrafo acima, não seria errado enquadrar como temática de Segredos de Sangue o rito de passagem. Em um primeiro momento, India é uma menina aparentemente mimada, apática. Suas vestimentas são obtusas, tendo como simbolismo as variações dos calçados que usa desde quando era bebê. Sua personalidade rude não tolera o toque de outra pessoa. Suas atitudes introspectivas conspiram até para sofrer bullying na escola. E depois que passa a receber influência de Charles, a princípio involuntária, sua líbido vai desabrochando, encontrado o que talvez seja o seu verdadeiro "eu". Para se fazer tal transição crível, importante ressaltar a atuação eficiente e comprometida de Mia Wasikowska. A atriz não renega protagonizar cenas de teor libidinoso, como quando se masturba raivosamente após um dos momentos chaves da trama. Tal cena, em nenhum momento é gratuita, ela é deveras importante para dimensionar as motivações da personagem e assegurar ao público que o caminho a ser percorrido não é dos mais palatáveis. Que de fato não existem exemplos a serem seguidos. Que metáforas edificantes não encontrarão seu lugar. 

Outro aspecto interessante de Segredos de Sangue é sua condição pouco didática. Muito da história é contado através das imagens: sombras que espreitam, cartas que confundem a mente de India, discussões com diálogos omitidos ou estilizados. A trilha sonora de Clint Mansell - Pi (1998), Requiem para um Sonho (2000), Lunar (2009) -, aliada as imagens, igualmente corrobora para introduzir e guiar o espectador. E mesmo a trama contendo suas peculiaridades, Park não se preocupa em explicar cada detalhe para o público - como o por que de Charles nunca fazer as refeições - e deixa certas lacunas para o espectador preencher como bem entender. Pode ser que Segredos de Sangue não seja mesmo a estréia que muitos esperavam. É um filme que mira o intimismo, menos mirabolante e sem as grandes surpresas dos trabalhos mais incensados do diretor. Particularmente, diria que é uma obra mais madura, sem maneirismos, e que traz uma perspectiva interessante para o cinema de Chan-Wook Park na América.





Ficha Técnica:
Segredos de Sangue (Stoker).
Direção: Chan-Wook Park.
Roteiro: Wentworth Miller.
Duração: 99 min.
País: EUA/Inglaterra.
Ano: 2013.
Elenco: Mia Wasikowska, Matthew Goode, Nicole Kidman, Jacki Weaver, Dermot Mulroney.

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