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Resenha de Filme: A Outra Face da Violência (Rolling Thunder)

2 de junho de 2013 1 Comente Aqui!

Como roteirista, posteriormente diretor, o norte-americano Paul Schrader, muitas vezes ao lado de seu irmão Leonard, foi um dos mais requisitados durante o criativo movimento cinematográfico iniciado no final dos anos 60 conhecido como New Hollywood. A pauta da maioria dos filmes, os roteirizados por Schrader também, era baseada na contra-cultura, utilizando de estética marginal, senso realístico e anti-autoritário, além de uma ácida crítica social. Perto do final dos anos 70, o círculo newhollywoodiano vinha em um arco descendente, muito pelos filmes deixarem de levar pessoas aos cinemas. Na verdade, Tubarão (1975), de Steven Spielberg, já havia demonstrado que o cinema ianque tencionaria a tomar um outro rumo, mais comercial, visando o entretenimento puro e  logo menos preocupado com tons artísticos. Entretanto, alguns filmes interessantes pautados nos preceitos da New-Hollywood continuaram sendo feitos, ainda que relegados a um espectador cada vez mais específico. Esse é o caso de A Outra Face da Violência, uma obra de menor expressão co-escrita por Paul Schrader.

Curiosamente ao analisarmos no contexto da trama, se percebe certas semelhanças pontuais com Franco-Atirador, de Michael Cimino. Se aqui houve alguma inspiração, ela partiu de Cimino, já que A Outra Face da Violência foi realizado cerca de um ano antes do filme por qual esse diretor levou o Oscar. Mas como a temática era recorrente, pode ser que não exista conexão. A história de A Outra Face da Violência também traz um protagonista, Major Charles Rane (William Devane), retornando da Guerra do Vietnã depois de passar anos como prisioneiro dos "vietcongs". Recebido com pompa de herói, Rane parece não encontrar seu lugar. Seu filho não o reconhece, não tem laços afetivos estreitos, pois era apenas um bebê quando o pai partiu para o conflito. Sua esposa envolveu-se romanticamente com o xerife da cidade e espera ávida pelo divórcio. E apesar de tantas problemáticas, nenhuma delas parece afetar suficientemente o Major. As torturas a que foi submetido o traumatizaram seriamente. Lhe retiraram sentimentos de fraqueza tornado-o uma pessoa extremamente fria. Em uma das comemorações pelo seu retorno, Rane recebe de presente um vistoso Cadillac e uma maleta recheada de moedas de prata. 

Enquanto busca interagir e conquistar seu filho, o que parece ser seu único interesse, Rane não se mostra contrário a separação iminente e até busca se entender com o namorado de sua esposa. Paralelamente, passa a ser assediado com afinco pela bela e jovem Linda (Linda Haynes), uma garçonete meio desmiolada que vê no homem uma especie de ídolo - "Sou sua groupie", ela diz a certa altura. Em um dia ao retornar para a casa, Rane é surpreendido por um grupo de homens atrás de sua maleta de moedas. Nesse momento, percebemos a real dimensão do trauma do Major. Ao começar a ser surrado pelos criminosos, Rane entra em um transe onde a dor parece não lhe atingir. Para piorar, sua esposa e filho chegam em casa no mesmo momento. E ainda que o garoto tenha prontamente entregue a maleta com as moedas, o grupo não se refuta em assassinar a família à sangue frio. Mas o trabalho não foi completo, pois o Major resistiu aos ferimentos e claro que vai buscar vingança. Durante a sessão de violência, ele perdeu a mão e passa a usar um afiado gancho no lugar. Acostumado e afeiçoado com a guerra, Rane vai instituir uma cruzada pessoal, usando Linda como isca e buscando auxílio em um ex-comandado seu, o soldado Johnny, interpretado por um jovem, mas não menos talentoso, Tommy Lee Jones (Lincoln)

Carregando na tensão gradativamente, A Outra Face da Violência demonstra uma direção consistente de John Flynn, especialmente nas cenas de ação. Posteriormente, Flynn se especializaria no gênero, dirigindo filmes como Condenação Brutal (1989) e Fúria Mortal (1991). O primeiro protagonizado por Sylvester Stallone (Alvo Duplo) e o segundo por Steven Seagal. O contexto crítico social, apesar de amenizado pela temática de vingança, encontra seu lugar na trama, evidenciando problemas relativos a violência gratuita, a inércia das autoridades e a hipocrisia do american way of life. O roteiro de Paul Schrader contém alguns exageros, mas que condizem com o ritmo do filme e com outros trabalhos seus, como o antológico Taxi Driver (1976). Bem verdade que existem semelhanças entre o Major Rane e o taxista Travis Bickle. Ambos são desajustados e acreditam que na violência exista algum sentido para suas existências. Mas nessa comparação reside um detalhe que faz toda a diferença: William Devane não é Robert De Niro (O Lado Bom da Vida). A atuação de Devane, extremamente caricata e canastrona, ao ponto de quase rir quando informado da morte de sua família, é um dos pontos fracos do filme. Não chega a comprometer o resultado final, mas irrita em diversos momentos.





Ficha Técnica:
A Outra Face da Violência (Rolling Thunder).
Direção: John Flynn.
Roteiro: Paul Schrader, Heywood Gould.
País: EUA.
Ano: 1977.
Elenco: William Devane, Tommy Lee Jones, Linda Haynes, James Best, Dabney Coleman, Luke Askew, Lisa Richards.

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