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Resenha de Filme: O Grande Gatsby 3D (The Great Gatsby)

5 de junho de 2013 0 Comente Aqui!

" - Ficou exagerado." Pergunta um ansioso Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio - Django Livre) no ponto de virada da trama. " - Ficou." Responde Nick Carraway (Tobey Maguire - Entre Irmãos), o co-protagonista que narra a história. " - Então está como eu queria." Finaliza Gatsby com um sorriso no rosto. No contexto de O Grande Gatsby, mais recente filme do cineasta australiano Baz Luhrman, esse pequeno diálogo pode parecer inexpressivo. Mas se analisado em suas entrelinhas, surge como uma afirmação bem-humorada de seu próprio realizador ao constatar que realmente seus filmes tendem aos excessos. E não ter vergonha de reconhecer isso é até louvável. Esse misè en scene característico de Luhrman, tencionando o descomedimento visual e por vezes narrativo, abdica do naturalismo e mira uma inevitável artificialidade. É bonito, principalmente agora que usa o 3D para trazer profundidade aos cenários. Contudo, não dá para dizer que atribui mais dramaticidade à sua obra. Na verdade, pasteuriza os sentimentos de seus personagens - repito, nada parece muito verdadeiro - e atenua o que devemos sentir em relação ao que vemos. Cenas que deveriam ecoar como trágicas ou focadas na violência acachapante dos fatos, soam forçadamente poéticas e não comovem. 

Tais considerações a respeito sobre como Baz Luhrman trata das problemáticas de seus personagens podem parecer negativas nessa nova adaptação da obra literária de F. Scott Fitzgerald. Afinal, esse clássico da literatura norte-americana é conhecido pelo seu caráter sério. E dessa forma foi retratado em 1974 no filme dirigido por Jack Clayton, roteirizado por Francis Ford Coppola e protagonizado por Robert Redford (Sem Proteção). Talvez por isso essa versão setentista é considerada uma obra idiossincrática, com um andamento maçante, apesar de retratar com rigidez os acontecimentos da década de 20, no pós primeira guerra mundial. Tanto o livro de Fitzgeral quanto o filme de Clayton têm camadas que funcionam como uma crítica ao "sonho americano". Nesse novo O Grande Gatsby, o roteiro assinado pelo próprio Luhrman - ao lado de seu colaborador usual Craig Pearce - esvazia as considerações sociais e foca na obsessão do operador da bolsa e aspirante a escritor, Nick Carraway, pelo personagem-título. A primeira cena coloca Nick internado em uma clínica psiquiátrica. Estimulado pelo seu médico, como fator favorável ao tratamento, começa a escrever sobre sua vida antes da internação e assim passa a relembrar de Gatsby, por quem nutria especial e excessiva admiração.

Como a maioria da utilização do voice-over na cinematografia recente, o artificio não é tão expressivo em O Grande Gatsby. Mas ainda assim percorre toda a narrativa. Os fatos surgidos através dos olhos de Nick remontam um passado recente, quando egresso de sua cidade natal vêm para Nova Iorque com a intenção de impulsionar sua vida profissional.  A paixão é a escrita, mas encontra no "esquentamento" da Bolsa de Valores um nicho para ganhar dinheiro, embora não seja tão bom no que faz. Vivendo em uma bucólica casa alugada na região dos novos ricos de Long Island, têm como vizinho o misterioso Jay Gatsby, dono de um imponente palacete. O sujeito não dá muito as caras. Sua vida é motivo de discussão pela sociedade. Seria Gatsby descendente de um Rei europeu? Ou um ex-herói de guerra? Ou ainda um gângster local? Qual a verdade por trás da figura impenetrável mantida por Gatsby? Nesse primeiro momento, o enigma em relação ao personagem é bem conduzido. Onde as deslumbrantes festas - aqui, Luhrman captura com eficiência a atmosfera catártica usada em Moulin Rouge! (2001) - servem para reforçar o mito e preparar para a primeira aparição de Gatsby. Ela acontece quando o milionário convida Nick para uma de suas inúmeras festas. Coisa incomum, afinal, os dispares frequentadores das comemorações aparecem sem cerimônias ou qualquer convocação prévia. 

Esse interesse repentino e improvável de Jay Gatsby por seu vizinho de caráter deveras simplório não é mero acaso, o abastado anfitrião tem interesses particulares em relação a Nick. E que não demorarão a serem revelados e tomado como mote principal. Enquanto isso, o rapaz começa a desenvolver uma fascinação pela personalidade "bon-vivant" e o estilo de vida de Gatsby. Nesse meio tempo Nick também mantêm contato com sua encantadora prima, Daisy (Carey Muligan - Shame), esposa do presunçoso Tom Buchanan (Joel Edgerton - Guerreiro), um ex-atleta aristocrata. O casamento deles é praticamente de fachada e a moça leva uma vida frustrada por causa das recorrentes traições por parte do marido. Principalmente com a libidinosa e despudorada Myrtle (Isla Fisher - Rango), esposa de seu mecânico, o voluntarioso George (Jason Clarke - Os Infratores). Para completar esse quadro ainda entra a melhor amiga de Daisy, a renomada golfista Jordan Baker (Elizabeth Debicki). Com as adversidades relativas a adultério, forte tendência ao alcoolismo dos personagens, além da iminente criminalidade advinda com a instauração da Lei Seca, fica parecendo um tanto reducionista Luhrman focar toda sua trama em um motivo particular de Gatsby, não abrir espaço para bem-vindas camadas. Tanto que não é estranho o filme ganhar evidentes ares de "épico novelão".

Certamente o que depõe a favor de O Grande Gatsby foi a maneira como Baz Luhrman tornou o texto de Fitzgerald em um filme fluido, fácil de assistir. Seus quase 150 minutos passam sem grandes contratempos, pontuados por uma trilha sonora pop, onde o jazz característico dos anos 20 e substituído por canções de hip-hop e rhythm and blues, algumas na voz da cantora Beyoncé. Certamente não agradará todos os gostos, bem provável que admiradores dos clássicos jazzísticos torçam o nariz ou achem tal hibridização intolerável. No entanto, é certo que assim como o 3D, a trilha sonora é um chamariz para o público mais jovem conhecer essa história clássica, mesmo que destituída de características importantes de outrora para assim se fazer mais palatável. A nova roupagem é muito mais acessível e antes de ser louvado por crítica, Baz Luhrman parece fazer filmes para agradar o grande público. Vide também o elenco, capitaneado por um astro do porte de Leonardo DiCaprio, um dos rostos mais conhecidos do mundo, e tendo como suporte Tobey Maguire, ainda estigmatizado como o Peter Parker/Homem-Aranha. Ambos atores, assim como Carey MulliganEdgerton e a bela Elizabeth Debicki envergam belíssimos figurinos, resultado da sempre cuidadosa direção de arte.

Em O Grande GatsbyBaz Luhrman apenas confirma sua verve para o espetáculo gratuito. O filme deve  - e muito - ao texto original. Nas mãos de um cineasta mais contido, teríamos um filme melancólico, condizente até com as nuances que percorrem os bastidores da alta-sociedade. Mas se Luhrman viu na pompa e circunstância das badaladas festas dos anos 20 um viés para fazer seu cinema, contar uma história de amor farsesca e trágica, quem pode mesmo segurar o australiano?






Ficha Técnica:
O Grande Gatsby (The Great Gatsby).
Direção: Baz Luhrman.
Roteiro: Baz Luhrman, Craig Pearce.
País: EUA, Austrália.
Ano: 2013.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Carey Mulligan, Elizabeth Debicki, Joel Edgerton, Isla Fisher, Jason Clarke, Amitabh Bachchan, Jack Thompson.

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