Resenha de Filme: Em Transe (Trance)

5 de maio de 2013 7 Comente Aqui!

Em 18 de março de 1990 ladrões disfarçados de policiais entraram no museu Isabella Stewart Gardner Museum, em Boston, e roubaram treze obras de arte. Considerado o maior roubo de obras de arte da história dos Estados Unidos, até hoje o caso não foi solucionado. Em 18 de março de 2013, o FBI relatou que identificaram os ladrões do tal roubo, mas que não descobriram o paradeiro das obras. Uma das pinturas roubadas foi "A Tempestade no Mar da Galiléia" (The Storm on the Sea of Galilee, 1633), do holandês Rembrandt. A famosa obra é conhecida por ter o próprio pintor representado, olhando em direção ao observador, podendo ser considerada como um auto-retrato. Esta mesma obra está contida na realidade paralela de Em Transe, novo filme do diretor oscarizado Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?, 127 Horas).

Escrito por John Hodge (recorrente roteirista dos filmes de Boyle, incluindo a adaptação do cult Trainspotting - Sem Limites) e usando a mesma história do filme feito pra TV de 2001 escrita por Joe Ahearne, Em Transe conta sobre um assalto a obra "Voo das Bruxas" (Vuelo de Brujas, 1797), do espanhol Francisco Goya, liderado por Franck (Vincent Cassel - Um Método Perigoso, Cisne Negro) com a ajuda do endividado Simon (James McAvoy - X-Men - Primeira Classe), um dos responsáveis pela segurança do quadro. Na correria do assalto, Simon leva uma pancada na cabeça e esquece onde escondeu a obra. Então, para ajudar com sua memória, os ladrões recorrem a Elizabeth (Rosario Dawson - Fogo Contra FogoO Zelador Animal), uma especialista em hipnose. A trama se constrói em inúmeras reviravoltas, e é nisso que o filme se calca. Prende-nos por nos mentir a cada momento. E nós estamos sempre em busca pela verdade.

Devo ressaltar, porém, o principal ponto negativo do filme. A criação dessa realidade, a qual chamei anteriormente de paralela não à toa, não soa nada crível. Todo o tempo do longa não vemos um policial, uma investigação, nem nada chegando perto a isso. No início o personagem de McAvoy diz, e volta a repetir, a frase "Uma obra de arte não vale uma vida", mas isso não significa que as pinturas dessa Londres moderna valem pouco - muito pelo contrário -, Voo das Bruxas é vendido por 27$ milhões. Só que os bandidos vão e vem sem nenhuma preocupação. Não seria difícil aceitar esse universo numa ficção se ele fosse apresentado e construído de maneira convincente e coerente. O Procurado, onde McAvoy também é o protagonista, desafiou radicalmente as leis da física, mas aquela realidade funcionou muito bem.

Mas é curioso entender as metáforas: as bruxas da Idade Média produziam, a partir de plantas tóxicas, unguento (pomada) com propriedades alucinógenas. Utilizando de uma vassoura para aplicar tal pomada, a absorção da mesma causava, entre outras coisas, a sensação de levitação - daí "voo das bruxas". O uso dessa substância altera o estado de consciência de uma pessoa, provocando a transe (mas, não, não existe nenhuma pomada no filme). Outra metáfora a entender: do mesmo modo que Rembrandt é o regente de sua obra - a qual também participa de modo discreto -, Simon é o principal autor, mas também coadjuvante, do roubo.

Difícil entender o que Boyle diz quando caracteriza este seu último trabalho como um "noir moderno". Sua estrutura contêm todas as características clássicas do gênero: uso de narração, assassinato ou roubo como centro da trama, a chamada femme fatale, ambiente contemporâneo, entre outros. De fato, nesta questão, Em Transe não recria nada. O que o filme pode inovar - aí eu posso concordar - seria referente a estética: de desgin de produção a fotografia, as cores receberam um tratamento diferenciado e estilizado, muito bem definido e colaborando para a narrativa de forma peculiar, nos confundindo entre realidade e aparência.

O uso excessivo da trilha sonora pop poderá deixar o espectador desconfortável. Às vezes parecendo um simples videoclipe bem produzido, às vezes parecendo um thriller inteligente, no final das contas Em Transe acaba não convencendo. Diverte, mas não convence.

Trailer

Ficha técnica
Diretor: Danny Boyle
Roteiro: John Hodge e Joe Ahearne
Elenco: James McAvoy, Vincent Cassel e Rosario Dawson
Produção: Danny Boyle e Christian Colson
Distribuidora: Fox Films

7 Comente Aqui! :

  • Hugo disse...

    Danny Boyle, os bons nomes do elenco e a premissa tinham tudo para render um bom filme.

    Mesmo as críticas não sendo das melhores, ainda pretendo conferir.

    Abraço

  • Silvano Vianna disse...

    Pois é Hugo esse filme eu achei bem confuso em muitos momentos. Ele tenta fazer uma reviravolta da reviravolta no final do longa que só piora a coisa para o espectador. Vá mas sem muitas expectativas...a parte técnica ta bem feita mesmo, mas para mim é só isso que tem de positivo...ah e a Rosario Dawson nua também é outro ponto positivo.

  • Silvano Vianna disse...

    Obrigado pela visita e o elogio Beta, volte sempre e comente bastante. O filme é legal em alguns momentos, mas muito confuso em outros tantos...como eu falei pro Hugo vá sem muitas expectativas.

  • Salvadeo disse...

    Gostei do filme e achei bem interessante. O inconsciente humano é confuso mesmo e o filme viaja nele. Com narrativa fluente e dinâmica te deixa grudado na tela.

  • Marcio Melo disse...

    Gostei bastante do filme, acho Danny Boyle um cara excelente e, o melhor, ele sempre procura inovar os "temas" de seus trabalhos, é só ver a sua filmografia.

    Em Transe tem uns momentos em que procura complicar para parecer mais engenhoso do que é, mesmo assim, é um grande filme.

 
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