Resenha de Filme: O Abismo Prateado

26 de abril de 2013 1 Comente Aqui!

Em entrevista recente, o diretor Karim Aïnouz afirmou que O Abismo Prateado, obra finalizada em 2011, mas que só agora chega ao circuito, é um filme sensorial, feito para o espectador experimentar a sensação de “levar um pé na bunda” e não tem necessariamente uma história. Convencido pelo produtor Rodrigo Teixeira, Aïnouz aceitou o desafio de dirigir essa curiosa adaptação da canção “Olhos nos Olhos”, composta por Chico Buarque e também conhecida por ser uma típica “música de fossa”. Segundo Buarque, a sua composição exprime sentimentos inerentes à rejeição, onde a letra, em tom de desabafo, conta como uma mulher lida ao ser abandonada por seu amante. O que difere ambas as mídias, além do formato, claro, é que a toada de Buarque é direta e assertiva. Também, não tem mais do que cinco minutos. Enquanto como filme, a mesma temática necessita de um conceito para a sua contextualização áudio-visual. Talvez nesse tramite resida as fragilidades de O Abismo Prateado.

A concepção idealizada por Karim Aïnouz opta por pouca verbalização, onde diálogos são comedidos ou dissociados, deixando a trama ser lentamente levada através das imagens. Logo concebe uma obra, apesar de menor em sua filmografia, deveras audaciosa. Pois o que antes como canção era simples, ganha contornos interpretativos diferentes, passando assim a ter uma inevitável “via de duas mãos”. Afinal, nem todo mundo sente a mesma coisa, até mesmo quando está diante de realizações que ditam as sensações. E se para uns, O Abismo Prateado será eficiente na sua proposta, comovente e repleto de poesia singela. Para outros, poderá ser simplesmente vago, idiossincrático, vazio no conteúdo e até na forma. Apesar de possuir uma cena particularmente bonita em sua estética, quando a protagonista extravasa ao som da canção “She´s a Maniac”, o filme revela uma incômoda parcela crua, se abstendo de trilha sonora (original), salvo em inserções incidentais como a citada, e de fotografia que corrobore a melancolia da protagonista.

A protagonista de O Abismo Prateado é a dentista carioca Violeta (Alessandra Negrini, de Dois Coelhos). Depois do vigoroso sexo matinal, seu marido Djalma (Otto Jr.) viaja a trabalho para a distante cidade de Porto Alegre. Durante o dia, ele manda uma mensagem para o telefone dela dizendo que não vai voltar para a casa, pois o relacionamento está desgastado e se sente sufocado. Violeta fica desorientada, procurando motivos para tal ato radical. Em um primeiro momento a confusão é tanta que a mulher cai de sua bicicleta. Depois visita uma obra, em uma cena tão inapropriada quanto à situação, onde uma mulher de parentesco não revelado tenta ajudar. Em seguida sofre outro tombo, machucando a testa. Num último ato desesperado, decide por ir ao encontro do marido, abandonado em casa o filho de catorze anos. Entretanto, no chegar ao aeroporto, não existem mais voos disponíveis. Sem perspectivas, Violeta escolhe vagar pela cidade, se hospedando em um motel, visitando boates bregas e culminando no encontro com Nassir (Thiago Martins), um jovem simples que passa por problemas semelhantes, e sua adorável filha.

Á medida que a trama de viés naturalista se desenrola, mesmo incomodando o público com uma ou outra consideração cretina do roteiro assinado por Beatriz Bracher, como a estranha e recorrente predileção dos personagens por sorvete, o que fica mais evidente em O Abismo Prateado é mesmo a inquietude da protagonista. Comprometida, a atriz Alessandra Negrini compõe uma mulher indisposta a aceitar sua recente condição. A sua Violeta adentra a noite em uma jornada, assincopada, verdade, mas que se fará pontual no fecho, tal como a última estrofe de “Olhos nos Olhos”. E se essa conotação faz presente como a sensação principal que percorre toda a narrativa, se deve afirmar que Karim Aïnouz atinge seu intento inicial. Não de uma maneira tão emocionante, reflexiva, instigante e eficaz quanto suas obras anteriores, mas totalmente conivente com o tipo de cinema que se preza a praticar: aquele que não se coloca no lugar comum apenas para receber elogios.



Ficha Técnica:

O Abismo Prateado.

Direção: Karim Aïnouz.

Roteiro: Beatriz Bacher.

Ano: 2011.

Elenco: Alessandra Negrini, Thiago Martins, Camila Amado, Milton Gonçalves, Otto Jr., Sergio Guizé, Carla Ribas. 

1 Comente Aqui! :

  • Alexandre Caetano disse...

    Adorei o filme, uma ótima transposição da música do Chico Buarque e ainda mostra o amanhecer em Copacabana! Tem uma crítica em
    www.artigosdecinema.blogspot.com/2013/05/o-abismo-prateado.html

 
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