Resenha de Filme: A Caça (Jagten)

3 de abril de 2013 6 Comente Aqui!

Uma das coisas que esperamos em breve se torne recorrente no Cinema Detalhado é a publicação de mais de uma crítica sobre o mesmo filme. Acreditamos que a pluralidade e a possibilidade de dar ao nosso leitor visões distintas sobre uma mesma obra serão a chave para o nosso sucesso. Pensando nisso e dado a disparidade de opinião sobre esta obra seguem abaixo as críticas de Marcelo Silva e Silvano Vianna.

Crítica de Marcelo Silva

Antes de ser um apanhado sobre um caso que elucida discussão sobre pedofilia, A Caça, dirigido pelo dinamarquês Thomas Vinterberg, de Festa de Família (1998), um dos percussores do movimento conhecido como Dogma 95, também é um relato contundente sobre as proporções assustadoras que a histeria coletiva pode tomar. Aqui, a emoção irracional surge da asquerosa suposição do abuso de uma criança por um adulto, gerando considerações belicosas dos mediadores do fato e em seguida impulsionando a neurose catártica. Essa urgência passional de justiça a qualquer custo leva a população de um pequeno povoado dinamarquês, curiosamente na época de Natal, “crucificar” um de seus ilustres moradores: Lucas (Mads Mikkelsen - Os Três Mosqueteiros, Fúria de Titãs, 007 - Cassino Royale). O tema é controverso, mas a ambigüidade não encontra lugar no roteiro assinado por Thomas Vinterberg e Tobias Lindhom. Com a iminente idoneidade do protagonista, o texto levanta discussões pertinentes sobre a necessidade incontrolável de se encontrar culpados para qualquer mal que abata na sociedade.

Pode parecer um pouco desajustada essa última afirmação do parágrafo anterior, principalmente por elucidar uma farsa impulsionada por uma criança e corromper o sentimento inerente à pureza infantil. Entretanto, vendo o mote da pedofilia como um eficiente recorte sobre o recorrente despreparo ao tratar de situações delicadas, logo A Caça deixa de ser um filme de cerne fechado para se mostrar como uma obra que transcende suas temáticas iniciais, propondo reflexão necessária. No filme, o autor Thomas Vinterberg recorre à pedofilia, pois é um assunto importante para se criar uma pauta comportamental. À medida que a trama se desenrola, percebemos que tais situações desenlaçadas de forma imperativa poderiam ser aplicadas a outros casos extremos de soluções intrincadas, podendo ser furtos, assassinatos, adultérios, estupros, entre outras. As camadas interpretativas existem, alinhavadas de forma a serem observadas por olhares atentos e interessados na digressão metafórica. Contudo, não se faz necessário ser um entusiasta de simbolismos para uma apreciação maior, pois A Caça também é um filme de narrativa simples, porém desafiadora, astuta e extremamente agradável de acompanhar.        

Para referendar o caráter inofensivo de Lucas, o ator Mads Mikkelsen entrega uma atuação onde seus sentimentos nunca são questionados. Carismático como o professor atencioso da creche, se vê surpreso quando uma das alunas, Klara (Annika Wedderkrop), de no máximo seis anos e ainda filha de seu melhor amigo, Theo (Thomas Bo Larsen), conta à diretora que não gosta mais dele. O motivo segundo as palavras da pequena: Lucas teria um “pipi” duro como um “pau”. Apesar de estarrecedora, a descrição é uma vingança infantil, intuitiva até e pautada em palavras que a menina escutou seu irmão adolescente pronunciar em uma brincadeira insensata com um amigo. E a motivação advém da frustração em relação ao posicionamento negativo do professor ao beijo na boca que ela conferiu nele em um momento inesperado durante uma brincadeira. O relato da menina contém um misto de naturalidade inocente e criatividade infantil, além de trejeitos gestuais que denotam aparentes mentiras, de fato um devaneio de criança mimada e contrariada. Entretanto, a afirmação simplista de Klara parece ser o suficiente para o caso ir à frente.

Certo de sua inocência, Lucas procura se manter tranqüilo, mas não demora até que sua vida se torne um inferno. Praticamente em uníssono, a cidade se posiciona contra Lucas, agora visto como um pedófilo insensível. A acusação toma dimensões imensuráveis, com outras crianças fazendo relatos semelhantes ao de Klara. Os fatos ganham impressionantes descrições detalhadas, com direito a rituais trabalhados na premeditação. Logo se percebe que as considerações transcendem o olhar infantil inicial, sugestionando direcionamento por parte dos adultos, ávidos em sentenciar o professor. E nesse sentido, Thomas Vinterberg não poupa o espectador das agruras passadas por Lucas. O título nacional, A Caça, fiel ao original norueguês (Jagten), é uma das metáforas citadas anteriormente, comparando a pratica comum da caçada de animais feita pela população do lugarejo ao caso de Lucas. Seguindo essa linha de raciocínio, o diretor concebe seqüências, alicerçadas em um sentimento de ódio ilógico, onde o professor surge como uma presa acuada, mesmo quando as investigações conduzem à inocência.

Mesmo com o Manifesto Dogma 95 considerado enterrado por seus idealizadores, Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, se percebe que A Caça guarda algumas características caras ao movimento. O senso é realista, com uma fotografia que denota pouca iluminação, alguns dos ambientes são banhados pela penumbra. A trilha sonora também é praticamente ausente, salvo em poucas inserções, como em uma singela e bonita cena em que a menina Klara dança em meio ao cair da neve. Como de costume, o diretor prefere captar sons diegéticos, além de dar a devida atenção aos diálogos, interpretados com competência por praticamente todo o elenco, que usa pouca ou nenhuma maquiagem. Apesar disso, não são características gratuitamente estilísticas, se fazem de base sólida para Vinterberg construir com talento seu incisivo e brilhante trabalho.



Crítica de Silvano Vianna

Desde que tinha ouvido falar do filme A Caça eu fiquei empolgado e intrigado sobre esta obra, especialmente por eu gostar de filmes que abordam aspectos mais sombrios da condição humana. Além disso o filme que foi dirigido pelo polêmico e talentoso Thomas Vinterberg foi vencedor de alguns prêmios no festival de Cannes ano passado. Essa soma de ingredientes e um número considerável de boas críticas fizeram com que minhas expectativas fossem altas quanto a qualidade desta obra. 

No filme somos apresentados a história de Lucas (Mads Mikkelsen - O Amante da Rainha), ele trabalha em uma creche quando é acusado de um crime que não cometeu. Boa praça e amigo de todos, ele tenta reconstruir a vida após um divórcio complicado, no qual perdeu a guarda do filho. Tudo corre bem até que, um dia, a pequena Klara (Annika Wedderkopp), de apenas cinco anos, diz à diretora da creche que Lucas lhe mostrou suas partes íntimas. Klara na verdade não tem noção do que está dizendo, apenas quer se vingar por se sentir rejeitada em uma paixão infantil que nutre por Lucas. A acusação logo faz com que ele seja afastado do trabalho e, mesmo sem que haja algum tipo de comprovação, seja perseguido pelos habitantes da cidade em que vive.

O filme para mim foi muito decepcionante, achei especialmente que o roteiro foi mal feito e deixou muitas pontas soltas ou mal explicadas para tentar provar o seu ponto de vista. Depois da "denuncia" da jovem Klara o máximo que a diretora faz é chamar um amigo para confirmar a versão da garota e esse faz perguntas totalmente tendenciosas em sua "investigação". Não bastasse isso ela e praticamente todos os adultos ao seu redor saltam a célebre afirmação para poder condenar o passivo Lucas: "As crianças não mentem!". Mantra esse que é repetido a exaustão durante o filme para que talvez você espectador acredite que um roteiro tão pouco convincente se torne profundo e cheio de nuances que só a Glória Perez entende.

Mas tudo bem vamos aceitar que todos os adultos dessa cidade comecem a adotar esse pensamento que as crianças não mentem. Para melhorar ou piorar as coisas mais ainda, a jovem Klara tenta se retratar algumas vezes durante o filme dizendo que o que ela falou sobre Lucas era mentira. Todos os adultos ao seu redor em vez de investigar ou averiguar essa nova informação resolvem adotar uma nova lei: "a criança na verdade não quer entender o que se passou e ela esta em processo total de negação!" O detalhe é que nem mesmo o pai dela que outrora foi o melhor amigo de Lucas (o passivo) se preocupa em algum momento em esclarecer essa "dúvida". Para completar essa salada mista durante o processo de investigação não ouvimos Lucas (o totalmente passivo) cogitar contactar um advogado ou contestar as acusações que enfrenta - em nenhuma momento ele faz isso durante o filme todo!!!

Tirando toda essa parte esquizofrênica do roteiro, eu achei a parte técnica do filme muito bem feita, mas somente isso não da para salvar um fiasco tão grande. Se a intenção desta produção foi provocar indignação, raiva, angústia o diretor esta de parabéns, o roteirista é um gênio e eu confesso sinceramente que ainda não tenho a capacidade intelectual necessária para entender esse tipo de obra. Eu me pergunto e muito se esta fosse uma obra em português e feita para a TV brasileira ela não iria parecer muito com as nossas novelas com histórias sem nexo e lógica que tanto criticamos? Será que muitas vezes não deixamos a paixão e admiração por cineastas do além mar falar mais alto quando avaliamos um filme? Particularmente, eu fiquei muito decepcionado com o resultado final desta produção, compreendo algumas questões interessantes que ela levanta, mas acho que a nossa jornada acompanhando e pensando sobre "a caça as bruxas" que as sociedades tentam fazer as vezes poderia ser explorada de forma mais prazerosa para o espectador.





Ficha Técnica:
A Caça (Jagten).
Direção: Thomas Vinterberg.
Roteiro: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm.
Ano: 2012.
Elenco: Mads Mikkelsen, Annika Wedderkrop, Thomas Bo Larsen, Lasse Fogelstrom.

6 Comente Aqui! :

  • Silvano Vianna disse...

    Nem gosto Rodrigo Sganzerla. Eu simplesmente não gostei de A Caça, é a minha opinião e minha percepção. Não é lei ou verdade absoluta, questão de gosto ou falta de gosto como vocês queiram colocar ou perceber. Não é melhor o pior do que a opinião e a visão de Celo, é apenas minha, impar e particular como qualquer pessoa. Mas que bom que você gostou, eu não e nos visite sempre que puder.

    Abraços!

  • Cleber Cripa disse...

    Nossa...este último "crítico" Silvano Vianna, não assistiu ao mesmo filme que eu, ou como ele mesmo disse "não tem capacidade intelectual necessária para entender esse tipo de obra".
    O filme é genial e único.
    Vejo que ele escreveu que Lucas não se defende no filme, e como fica a parte em que ele dá uma cabeçada no açougueiro no mercado? E a parte em que afronta a todos na igreja em pleno natal? Isso não é se auto defender?

  • Silvano Vianna disse...

    Pois é Cleber não gostei desta película, sei que teve muita gente que gostou dela mas eu não, também não gosto de me considerar ou me alto proclamar "crítico" porque tem muita gente que usa desse lugar para se achar que sabe mais do que os outros.

    Cinema como qualquer arte é uma questão de percepção e a obra conseguir tocar as pessoas.

    Mas voltando a discussão saudável que é o que mais me interessa. Lucas não se defende, ele também não usa de argumentos para demonstrar o quanto as pessoas estão erradas a respeito dele. Ele nem procura ou se aconselha com um advogado que é o mínimo que se deve fazer em um caso como esses.

    Você citou o momento de confronto físico no supermercado, antes ele apanhou muito no mesmo local e depois ele agrediu justificadamente aqueles que lhe surraram, mas não tinha se defendido. Já a confusão na igreja no Natal foi um ato de desespero ou desconforto absoluto que toda aquela situação já teria gerado. Não foi um ato de defesa, ali ele não lutou por sua inocência e todas injustiças que foram cometidas contra ele. Na verdade, ele descarregou a sua raiva em uma das pessoas que deveriam te-lo defendido com unhas e dentes; o seu melhor amigo.

    No mais nos visite e comente sempre que quiser.

    Abraços!

  • Alessandro Ricardo Vieira disse...

    Silvano! O filme é excelente! Sou psiquiatra e essa máxima de "criança não mente" já causou muita confusão na vida real. Concordo que a decisão do roteirista em tornar o Lucas em uma pessoa que "parece" não lutar pela sua inocência foi muita passividade, mas dei um desconto. O assunto é delicado e a onda da Pedofilia é a que causa mais sensação de repulsa na sociedade. Acho que você pegou bem pesado na análise do filme.

 
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