Resenha de Filme: Febre do Rato

2 de fevereiro de 2013 2 Comente Aqui!

O cinema nacional é repleto de grandes produções, que passam despercebidas pelos cinemas brasileiros, pelo simples fato dos exibidores só se interessarem pelas comédias globais, de mau gosto, do escalão de "E ai...Comeu?" ou "Os Penetras". Talvez seja uma declaração forte, mas me pergunto quantas pessoas tiveram a chance ou ouviram falar de Febre do Rato? Um filme denso, filmado em preto e branco, com uma mensagem sensacional e grandes atuações. O próprio público tem sua parcela de culpa, é difícil de ver alguém que escolheu Febre do Rato em detrimento de algum sucesso Hollywoodiano. 

Para quem não sabe a expressão "Febre do Rato" remete a uma pessoa que está fora de controle. É importante começar a explicar o filme com esse esclarecimento, pois iremos percorrer durante toda a projeção os passos de Zizo, um poeta com espírito anarquista, que é responsável pela publicação de  um jornal independente, cujo o nome é Febre do Rato, fazendo referência ao título da película. Sua vida além de publicar neste tabloide é fazer poesia para os amigos e transar com as mulheres mais velhas de seu bairro. Suas crenças e pensamentos começam a mudar quando ele termina conhecendo uma jovem, que resiste às suas cantadas e aos seus poemas, fazendo com que seu jeito inconformista comece a ficar em cheque.

O diretor Cláudio Assis é, sem dúvida, um dos grandes talentos de nosso país. Poucos tem a coragem de se deixar levar pelas idéias como o diretor pernambucano, que é criativo e ousado ao ponto de nos entregar uma película em preto e branco e repleta de nus frontais. A fotografia de Recife descolorada enriquece demais Febre do Rato e fortalece o trabalho do protagonista, que grita reclamando do barulho e da sujeira que toma conta da cidade. Apesar de estar parecendo que estamos diante de uma obra repleta de exageros, posso dizer tranquilamente que tudo é muito bem trabalhado e detalhado, ao ponto de não assustar o espectador, principalmente por não haver nenhuma confusão entre banalismo e anarquismo. 

Irandhir Santos nos brinda com uma das melhores atuações do ano passado e se firma como um grande destaque do cinema nacional. O ator, que fez parte do elenco de Tropa de Elite 2, rouba todas as cenas e consegue atingir o espectador como poucos fizeram recentemente. Atuação digna de prêmios. Nanda Costa, um pouco mais gordinha e menos famosa, também faz um belo trabalho, mas infelizmente fica ofuscada pelo seu colega de trabalho.

A trama do filme é muito interessante e leva a discussão de por que devemos seguir os padrões exigidos pela sociedade? Por que nós precisamos ter os cabelos cortados, achar as jovens magras atraentes? O quanto nós somos capazes de incomodar aqueles que estão acostumados com essa ordem? Isso está muito bem retrato no embate que surge no filme entre palavras e poesias com armas de fogo e a constituição. Fica assim, uma lição de que é possível se viver longe desse universo e conviver com amigos apaixonados por travestis e em mundo onde o simples se torna essencial. Daí está um protagonista que se encontrará em uma situação delicada desde que, possivelmente, esteja se esvaindo de seu pensamento anarquista.

O conflito do protagonista talvez seja o mesmo que o diretor encontra em seu dia a dia, pois é possível afirmar que Zizo se trata do alter ego de Cláudio Assis, sendo a diferença deles o fato de um fazer filmes como forma de expressão e o outro escrever no jornal independente Febre do Rato ou fazer poesiasDisso tudo temos a certeza de que todos devem se expressar e viver da forma que se sentir melhor.  Protestantes contra a política ou leis forçadas irão se deliciar, mas aqueles que não, merecem assistir para entender que o cinema nacional gera filmes do nível de Febre do Rato. Do tipo que nos faz refletir e pensar.


Trailer do Filme:


Ficha Técnica:
Diretor: Cláudio Assis
Elenco: Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Ângela Leal, Maria Gladys, Conceição Camarotti, Mariana Nunes, Juliano Cazarré, Victor Araújo, Hugo Gila, Tânia Granussi
Produção: Julia Moraes, Claudio Assis
Roteiro: Hilton Lacerda
Fotografia: Walter Carvalho
Duração: 110 min.
Ano: 2011
País: Brasil
Gênero: Drama
Cor: Preto e Branco
Distribuidora: Imovision

2 Comente Aqui! :

  • Anônimo disse...

    Eu acho que vc esta confundindo DISTRIBUIDORA com CIRCUITO EXIBIDOR. Todos os filmes nacionais tem suas distribuidoras, a questao eh se os exibidores querem esses filmes das distribuidoras passando em seus cinemas. Ai sim... Logo, se nao ta passando no circuito exibidor, com certeza a midia n vai falar nada ou divulgar pq logico nao ta passando ne... Abrçs

  • Vulgo Dudu disse...

    Eu achei este o filme mais amansado do Cláudio Assis, o que foi bom pra ele. Deu pra entender com mais clareza o argumento - sem contar que a fotografia é estonteante. Acho que ele alcançou uma maturidade que vai permitir que o público se aproxime mais da sua obra.

    Abs!

 
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