Crítica: Purple Rain (trilha sonora)

3 de fevereiro de 2012 2 Comente Aqui!

Antes de adotar aquele símbolo impronunciável como nome e virar The Artist Formerly Known as Prince, Prince Rodgers Nelson tinha o pop mundial na palma da mão. Ele já foi descrito como narcisista, petulante, presunçoso e controlador. Paradoxalmente, ele é tido no seu círculo interno como alguém tímido, vulnerável e incrivelmente cortês para aqueles que gozam de sua afeição. Com esse montão de contradições, resta saber: quem é Prince, afinal? O seu lendário amor à privacidade (ele chegou a ficar três anos sem dar entrevistas, no ápice de sua carreira) reforça a aura de mistério. O ingresso para o mundo purpúreo e aveludado de Prince é Purple Rain, batizado em Portugal com o título Viva a Música.

Prince foi iniciado no universo musical por seu pai, John L. Nelson, um pianista de jazz habilidoso. Além de Miles Davis e Charles Mingus, o lado mais pop da música negra interessava a Prince. E muito. As performances vibrantes de James Brown, a fúria guitarreira de Jimi Hendrix e a “família” inter-gênero, inter-racial de Sly Stone forneceram a diretriz para toda uma carreira. O casal Nelson se divorciou quando ele tinha 10 anos de idade, e quando John foi embora o pequeno Prince Rodgers Nelson jurou que seria melhor do que o pai. Aos 19 anos, o garoto já dominava 31 instrumentos – mais do que o seu ídolo Stevie Wonder.

Impressionados com essa precocidade e o tremendo talento do rapaz, a Warner Bros. firmou um contrato com Prince de três discos (o normal eram dois, no máximo). A gravadora deu-lhe adiantamento de US$ 80 mil e a garantia de controle criativo da sua obra. O contrato valia um total de US$ 180 mil, algo inédito em 1977. No ano seguinte Prince gravou For You, produzido por ele mesmo, onde tocou todos os instrumentos. O segundo álbum, Prince (1979), veio com o hit “I Wanna Be Your Lover” e uma turnê com Rick James (aquele de “Super Freak”, que MC Hammer sampleou para “U Can’t Touch This”). A banda que o acompanhou ao vivo seria conhecida como The Revolution muito em breve.

Nessa fase do Revolution, o então guitarrista da banda, Desmond “Dez” Dickerson, apresentou Led Zeppelin e o Beatles para Prince. Prince gostava de como os Beatles usavam instrumentos exóticos e técnicas de produção engenhosas num contexto pop. Prince também estava antenado nos movimentos do seu tempo – especialmente o punk (ele amava The Clash) e o seu primo pop, o new wave. A influência do new wave aparece no seu terceiro álbum, Dirty Mind (1980), onde a sua visão musical, uma fusão eclética de funk, rock clássico e pós-punk, deu forma ao famoso “som de Minneapolis”. E o Revolution não estava aí só para quebrar barreiras musicais, mas também comportamentais: era um grupo de homens e mulheres, negros e brancos, heteros e gays (Wendy Melvoin e Lisa Coleman, a tecladista e a guitarrista, formavam um casal).

A Warner ficou satisfeita com o progresso comercial de Prince. O último álbum dele lançado pela gravadora, o duplo 1999, vendeu bem: 4 milhões de discos nos EUA (desde 1982) e um desempenho significativo nas paradas da Inglaterra e do Canadá... Mas Prince disse que só assinaria de novo com eles se tivesse a chance de brilhar em outra frente: Hollywood.

Fazer um filme-concerto baseado na sua vida era algo que Prince já tinha em mente há anos. Prince andava com uma caderneta roxa no bolso onde anotava as suas idéias, mas o roteiro de Purple Rain teve a sua gênese durante a Triple Threat Tour, a turnê do álbum 1999 que fez com o Time e as suas protegidas, as Vanity 6. Purple Rain não era para ser um documentário; até onde ele retrata a vida íntima de Prince e as vivências das pessoas próximas à ele, nunca saberemos. Como disse o produtor do filme, Bob Cavallo: “Ele queria que fosse a história de Prince sem ser a história de Prince.”

No natal de 1983 Purple Rain começou a ser rodado em Minneapolis, a cidade natal de Prince. A direção de Albert Magnoli foi grandemente influenciada pela estética videoclipe da MTV e por Cabaret (1972) de Bob Fosse, principalmente as cenas no interior do First Avenue, o clube favorito de Prince. Era lá onde tomava conhecimento das bandas punk locais e sempre testava o seu material novo, usando a reação do público como barômetro. Por causa do frio insuportável de Minneapolis, a produção abandona Minnesota e parte para Los Angeles. Lá foi filmada a entrada triunfal de Prince no First Avenue com a sua moto, uma Honda 400 púrpura modificada.

O enredo de Purple Rain não tem nada demais. Prince – “The Kid” no filme – é o líder do Revolution, uma jovem e ambiciosa banda que enfrenta a competição acirrada do Time nos palcos do First Avenue, a boate mais concorrida da cidade. Além de aturar as provocações de Morris Day, frontman do Time, e administrar os conflitos internos de sua banda, The Kid tem um prato cheio em casa. Seu pai, Francis L. (Clarence Williams III), era um pianista de talento até sabotar a sua própria carreira e virar um alcoólatra taciturno, adepto a espancar a mulher (Olga Karlatos) numa de suas inúmeras crises de ciúme. O Kid, ao que parece, está condenado a seguir os passos do pai.

A chegada na cidade de Apollonia (Kotero) muda tudo. Uma cantora praticamente fugida de Nova Orleans, ela quer tentar a sorte em Minneapolis. Logo conhece o First Avenue, onde vê o show de Prince. Ela rapidamente se torna o pivô de um triângulo amoroso entre Prince e Morris, os protagonistas do filme. Morris corteja Apollonia, mas é Prince quem a leva para casa. Tudo corre bem até Prince descobrir que Morris montou uma banda para ela, a Apollonia 6, pelas suas costas. Ele fica possesso e bate em Apollonia. Quando percebe o seu erro, ao imitar o ciúme descontrolado do pai, Prince já tinha posto o relacionamento a perder. Enquanto isso, a falta de comunicação entre ele e o resto da banda cresce sem parar. Os seus problemas de casa continuam a afetar a performance da banda, a ponto do dono do First Avenue ameaçar pôr o Revolution no olho da rua. No meio desse turbilhão emocional Prince volta uma noite pata casa e vê Francis L. com uma arma mão, tentando se matar com um tiro na cabeça. O pai fracassa e é levado pra a emergência do hospital.

Abalado pela tentativa de suicídio do pai, Prince chega na etapa final de sua Via Crúcis. É agora, no fundo do poço, que ele têm que dar tudo de si, senão o Revolution está fora do First Avenue. “Purple Rain” é a sua cartada final, e o ápice do filme. “Purple Rain” é, antes de tudo, uma canção de conciliação; uma balada de Wendy e Lisa, uma das “músicas idiotas” das meninas que Prince não queria ouvir; um tributo à Francis L.; e uma nova porta de entrada para a vida de Apollonia. Purple Rain fecha com a triunfante “I Would Die 4 You”, frase que o seu pai falou para a sua mulher, num de seus tresvarios alcoólicos.

Seja como for, Purple Rain custou R$ 7 milhões pra fazer e rendeu US$ 75 milhões para a Warner Bros. Seguiu-se uma turnê de lotação esgotada de seis meses para acompanhar o lançamento do disco / filme. No ápice de sua popularidade, o Revolution estava tocando para 90 mil pessoas no Super Dome, a maior arena esportiva já construída. Em 1985, Prince ganhou Oscar por “Melhor Canção Original” pela música-título, foi indicado ao Globo de Ouro na mesma categoria (por “When Doves Cry”) e levou dois Grammys. Purple Rain, o álbum, vendeu que nem água nos Estados Unidos – 13 milhões de cópias até agora, fora os discos de Platina que alvejou na Grã-Bretanha, no Canadá e na Alemanha. A ascensão meteórica de Prince ao super-estrelato chamou a atenção para a cena musical de Minneapolis. Esse efeito colateral beneficiou o Soul Asylum assim como o Husker Dü e o The Replacements, grupos de punk / hardcore locais imensamente influentes na revolução do Rock Alternativo.

Para promover o filme a Warner lançou mão da sinergia – um jargão corporativo em voga naquele tempo, que significava uma integração estratégica entre os mercados da música e do cinema. Para isso eles precisavam de um single, e “When Doves Cry” foi o primeiro compacto a ser lançado, em 9 de junho, um mês e meio antes da estréia de Purple Rain. No filme, ela aparece quando The Kid repassa na sua cabeça as complicações emocionais de ter uma família disfuncional. “When Doves Cry” era, a priori, uma escolha arriscada: sua produção era muito crua (nem linha de baixo a música tinha!) e o tema da letra era pesado, um monólogo sobre desamparo e solidão (“How can you leave me standing alone in a world that’s so cold”). A aposta deu certo: “When Doves Cry” foi seu primeiro #1 na Billboard. A música tem aqueles guinchos lascivos e falsetes lancinantes típicos de Prince, que matariam Little Richard de inveja, fora as sonoridades características da bateria eletrônica LinnDrum e do sintetizador Oberheim 8-Voice, os dois bastante usados durante esse período da banda.

Para entender uma parte do apelo de Prince, é preciso olhar o fervor religioso com que ele encara o ato sexual. Sua fase pré-Purple Rain já estava recheada de referências ao amor carnal: “Little Red Corvette” (um carro esporte ou um clitóris?), “Head” (sexo oral) e “When You Were Mine” (sexo à três). A imagem andrógina, “pansexual” de Prince é um caso aparte. O seu famoso signo (vejam logo abaixo) pode ser lido como um símbolo hermafrodita, pois segue o princípio da alquimia sobre a conjunção do masculino com o feminino. Ele é também uma versão estilizada do símbolo alquímico do esteatito ou “pedra-sabão”, uma rocha resistente a temperaturas extremas e altamente maleável, usada em esculturas e outros fins artísticos.

Nem todo mundo achou graça em Prince, o messias da fornicação. O pensapol puritano implicou com ele, alegando que a sua música incitava a promiscuidade, o incesto e a violência. Tipper Gore, ex-mulher do Al Gore e fundadora do Parent Music Resource Center, foi uma das que ficaram indignadas com a “vulgaridade” de Prince. Ela tinha dado Purple Rain de presente para a sua filha de 11 anos e ficou estarrecida quando ouviu a letra de “Darling Nikki”. É uma música abre com uma estrofe sobre masturbação no saguão de um hotel e serve no filme como uma alfinetada do The Kid em Apollonia, que aos seus olhos mudou de time quando aceitou cantar na banda montada pelo seu rival, Morris. Foi por causa de “Darling Nikki” que Tipper Gore fundou a PMRC e os CDs americanos começaram a vir com o adesivo “Parental Advisory: Explicit Lyrics.”

Mesmo conseguindo se manter no topo com Parade (1986), apoiado pelo sucesso de “The Kiss”, havia rachaduras sob a fachada do Revolution. Se a falta de comunicação entre Prince e o resto da banda já era um fator em 1984 – a julgar pela intransigência que tinha em relação à Wendy e Lisa no filme – o megasucesso de Purple Rain o fez regredir ainda mais no seu mundinho auto-suficiente. Começou a viajar sozinho nas turnês do Revolution e no final da “gira” de Parade ele demitiu Wendy e Lisa. Musicalmente falando, Prince “estava perdendo contato” consigo mesmo, justificou, já que as meninas faziam os arranjos de todas as suas músicas novas. Brown Mark, baixista, e Bobby Z., baterista, as seguiram por conta própria. A promissora aventura cinematográfica de Prince terminou com dois fracassos de bilheteria: Under the Cherry Moon (1986), pelo qual ganhou a Framboesa de Ouro por pior atuação, e Graffiti Bridge (1990). A década seguinte foi cruel com “O Artista”. Ele ficou defasado com o advento do grunge e do hip-hop, e teve início a sua briga quixotesca contra a Warner Bros. Esse conflito com a sua ex-gravadora não movimentou a imprensa; aparentemente, ninguém ligava mais para Prince...

Seja qual for o seu status atual na indústria fonográfica, Prince sacudiu o meio musical com o seu profissionalismo inflexível e a sua musicalidade extraordinária, impactando de Nine Inch Nails à Lenny Kravitz e Lady Gaga. Em 1984, no auge da fama, Prince era um Pã pós-moderno, a celebrar na gélida Minneapolis a sua versão dos antigos cultos dionisíacos através de uma irresistível mistura de sexo, música e religião. Tirando as partes que lembram um dramalhão mexicano, Purple Rain trata de, essencialmente, uma revolução pessoal: a transcendência da dor e do sofrimento através da arte. E foi com Purple Rain, a realização máxima de sua dedicação e talento, que Prince chegou no topo da montanha.

Cinema Detalhado não disponibiliza links pra download. Se quiserem ouvir a trilha, mandem uma mensagem pra mim que eu a envio via e-mail. Obrigado

2 Comente Aqui! :

  • Zé Felipe Sá disse...

    Pois é Karla, o "fashion sense" dos anos 1980 sempre foi deveras... peculiar :)

    Lembro de quando eu era criança e ouvia "When Doves Cry" na rádio. Era uma música incrivelmente pegajosa e ao mesmo tempo melancólica; sempre me marcou.

    E obrigado por comentar!

 
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