Crítica: A Rede Social (trilha sonora)

15 de dezembro de 2011 3 Comente Aqui!

Na escola, aprendemos sobre a Revolução Industrial. Lemos sobre o acúmulo de capital que ela gerou, assim como as condições de trabalho subumanas do proletariado: turnos de 18 horas, higiene ocupacional precária, exploração de mão de obra infantil a torto e a direito, etc. Aí vieram Taylor e Fayol e fizeram da produção em massa uma ciência, e o Fordismo consolidou as suas ideias como a nova realidade do século XX. As grandes indústrias sobreviveram leis antimonopolistas, o crash da bolsa de 1929 e as sucessivas crises do petróleo para afirmar o seu poder de moldar o futuro da civilização Ocidental. Lentamente, atravessamos a Era Industrial e chegamos à Era da Informação (ou, Era Digital).

Um dos elementos-chave dessa transição foi a invenção do computador. Naqueles tempos, no início e durante a Segunda Guerra, os computadores eram geringonças elefantinas e deselegantes tipo o ENIAC, que pesava 30 toneladas e era menos potente que uma calculadora de bolso. A coisa evoluiu e nos meados da década de 1970 coube a Steve Wozniak e ao falecido Steve Jobs deslanchar o conceito de personal computer (vulgo PC) ao inventarem o Apple I, o primeiro “microcomputador” bem-sucedido. Paralelo a isso o grande rival deles, Bill Gates, estava desenvolvendo software para o Altair 8800, concorrente da Apple. A sua companhia, a Microsoft, entrou pela porta da frente da IBM com o MS-DOS, e em 1985 lançaram o Windows, que fez de Bill Gates um bilionário. (Dizem as más línguas que ele teria copiado a interface gráfica do Macintosh quando esse ainda era “o” projeto ultra-secreto de Steve Jobs).

Como diz o soneto de Vinícius, “de repente, não mais que de repente,” os nerds tomaram conta. Revoluções poderiam agora ser feitas sem sair de casa. A sorte estava lançada para quem seria o próximo bilionário do Vale do Silício...

Anos se passam e na mesma Harvard em que o atual cinquentão Bill Gates frequentou surge Mark Zuckerberg. Se as primeiras impressões contam, Zuckerberg era um sujeitinho franzino e antisocial, inseparável de seu agasalho com capuz e chinelo Adidas... Mas tinha algo de diferente naquele geek desleixado e de personalidade esquizóide. Como disse uma vez o seu ex-melhor amigo, o paulistano Eduardo Saverin, “havia algo de anárquico por trás dos olhos azuis daquele garoto.” Um menino-prodígio da informática que gostava de chutar o balde, Zuckerberg reinventou o conceito de redes virtuais interativas com o Facebook, criando a maior mídia social do planeta – 500 milhões de inscritos, segundo a propaganda do filme. (No final de 2011 contabilizam-se mais 300 milhões de usuários). Os investidores de Palo Alto seguiram a sua versão cibernética do Sonho Americano: mês passado a Forbes avaliou a fortuna de Mark Zuckerber em US$ 17,5 bilhões.

Engana-se, no entanto, quem achou que o filme do Facebook é sobre um bando de nerds grudados na tela de um computador, pedindo pizza à 1h da manhã. “A Rede Social não é uma história sobre um site,” afirma Armie Hammer, que interpretou os arquinimigos de Zuckerberg no filme, os gêmeos Winklevoss. A Rede Social é uma história sobre “amizade e lealdade, ciúme, classe, poder, traição” revela Aaron Sorkin, que ganhou um Oscar pelo seu roteiro. E até que ponto vale ser um cuzão para implementar uma grande idéia.

A Rede Social subiu para o topo da lista dos melhores do ano da imprensa americana; foi o favorito entre jornalistas do New York Times, Chicago Tribune, Washington Post, Miami Herald e o LA Times. O hype em torno do filme dificultou uma avaliação imparcial; A Rede Social não é tão bom quanto seus admiradores gostariam de acreditar (comparar com Cidadão Kane? Ô exagero) e nem é tão massante e palavroso quanto os seus críticos insistem. Houveram aqueles que acharam ruim a abordagem “fantasiosa” com a qual Aaron Sorkin e o diretor David Fincher decidiram tratar a sua matéria-prima, engrenando uma história torneada por personagens inventados e incidentes fictícios. Nesse quesito, A Rede Social gerou forte incômodo na direção do próprio Facebook. Mark Zuckerberg, que se recusou a ser entrevistado para Bilionários por Acaso (2009) de Ben Mezrich (o livro no qual o filme foi baseado), disse para o Guardian que na composição do seu simulacro os cineastas só acertaram mesmo o jeito que ele se vestia.

Um aspecto muito comentado sobre o filme foi a trilha do Nine Inch Nails, a “banda-de-um-homem-só” que trouxe a música industrial às massas. Os caminhos de Trent Reznor e David Fincher tinham se cruzado antes de A Rede Social. O diretor usou uma música do NIИ na introdução de Se7en – Os Sete Pecados Capitais (1995), um remix de “Closer” pelo grupo Coil. Numa matéria para a revista britânica The Wire, o jazzista Paul Schülze comentou na época que essa remixagem – intitulada “Closer (Precursor)” – confunde as barreiras entre música e efeito sonoro, e a destreza do seu sound design fazia as tentativas semelhantes de Hans Zimmer e James Horner soarem ridículas. Fincher e Reznor conversaram anos á fio sobre fazer um musical baseado em Clube da Luta (1999) que nunca saiu do papel. Acabaram unindo suas forças na produção do clipe de “Only”, uma das músicas de trabalho do With Teeth (2005), o álbum que marcou a volta da banda depois de um hiato de seis anos sem lançar um long play com material inédito.

Apesar de A Rede Social ser a sua estreía oficial como compositor de trilhas sonoras, Trent Reznor não é bem um marujo de primeira viagem. Um fã de longa data de David Lynch – ele interrompia a turnê do Pretty Hate Machine (1989) no meio pra assistir Twin Peaks – Trent foi convocado pelo diretor para produzir a trilha de Estrada Perdida (1996), onde contribuiu com algumas músicas, entre elas “The Perfect Drug”. Reznor produziu também a trilha de Assassinos por Natureza (1994) de Oliver Stone, a convite do próprio. Um disco eclético, que vai de Jane’s Addiction a Leonard Cohen, ele inclui entre suas faixas outra inédita do Nine Inch Nails, “Burn”.

Quando Fincher propôs que ele fizesse a trilha do filme, Reznor nem quis saber. Motivo: o músico acha repulsiva a “falsidade” das redes sociais, de como as pessoas tentam se encaixar num estereótipo pelas preferências listadas na página do Facebook. “Se o número de pessoas que listam o Joy Division no seu perfil realmente escutassem a banda, o Joy Division seria maior do que o U2,” escarnece. Foi só quando David Fincher entregou o roteiro de Aaron Sorkin, criador do seriado The West Wing, que ele se despreocupou com a qualidade do material. Ironia: assim como Trent, Aaron não é adepto do social networking.

Fincher conversou com Reznor sobre as referências sonoras que estava buscando para A Rede Social, a começar pelos reis da kosmische musik, o Tangerine Dream, e a trilha de Blade Runner (1982) de Vangelis. “Não tenha medo de sintetizadores,” disse para Trent; eles são “o som da tecnologia”. Essa é a razão pela qual a música do filme tem essa veia meio “Atari” / retrô / anos 80, apesar da história se passar entre 2003 e 2005. A segunda faixa do disco, “In Motion”, ouvida enquanto Zuckerberg cria o Facemash, é o maior exemplo dessa estética vintage, coisa destacada por Reznor em entrevista ao Los Angeles Times. É sabido que Reznor coleciona baterias eletrônicas antigas no seu estúdio, tipo a Roland TR-606, e também têm uma parede de sintetizadores analógicos: Minimoogs, Oberheims, um Casio SK-1 e até o Ondes Martenot, um synth modular de 1920 usado em “Sunspots” do With Teeth.

A outra referência musical sinalizada por Fincher foi o próprio Nine Inch Nails; especificamente, o álbum instrumental deles de 2008, o Ghosts, o terceiro com Atticus Ross a bordo. David Fincher ouviu o Ghosts até enjoar, usando as faixas do disco como temp tracks enquanto fazia uma pré-decupagem do filme. Duas delas acabaram na trilha como “interpolações”. A “35 Ghosts IV” virou “A Familiar Taste”, exibida na cena onde se intercala o “Fuck Truck” chegando no Porcellian – o mais exclusivo dos clubes da Harvard – com o alunado acessando o Facemash, o site que virou febre no campus e travou o servidor da universidade. O Facemash meteu Zuckerberg numa enrascada com as feministas do campus, mas fez o seu nome na comunidade hacker da Ivy League. A outra é “Magnetic” / “14 Ghosts II”, na cena onde Mark (Jesse Eisenberg) e Eduardo (Andrew Garfield) encontram Sean Parker – numa primorosa atuação do ídolo pop Justin Timberlake – em Nova Iorque, pela primeira vez.

Para colhermos um insight a respeito de como se monta o quebra-cabeça sônico da dupla Reznor / Ross, seria proveitoso analisar a faixa “Eventually We Find Our Way”. Depois de conversarem no dormitório da Kirkland sobre o cease and desist emitido pelos Winklevii, Eduardo e Mark vão tomar uns drinques com Christy (Brenda Song) e Alice (Malese Jow), que deram mole pros dois durante a palestra de Bill Gates. A próxima cena é as meninas agarrando eles sofregamemente no banheiro de um bar. “Nós temos groupies,” Eduardo diz pra Mark, pós-fellatio, com cara de bobo. O que ouvimos nessa passagem são múltiplos canais de microfonia de guitarra, amontoados camada sobre camada, uma bateria Sonix e o Swarmatron, sobre o qual comentaremos no parágrafo por vir. Munida desses elementos, “Eventually We Find Our Way” sublinha a tensão da cena, um misto de euforia, confusão e descarga sexual. No final dela o feeling muda; o noise caótico é abafado na mix e daí surge uma sequência de power chords abafados numa guitarra clean, tipo o riff de “Help Me I’m In Hell” do Broken (1992). É quando Mark vê a sua ex-paquera Erica Albright (Rooney Mara) e vai lá se desculpar pelo incidente do Facemash e pelos comentários que fez no seu blog, o Zuckernet. Segundo o filme, o fora que ele tomou de Erica foi o motivo por ter começado o Facebook. (O Zuckerberg de verdade diz que essa menina sequer existiu.)

Para personalizar o Mark Zuckerberg de David Fincher na telona, Atticus e Trent se ateram ao Swarmatron. Fabricado artesanalmente “por dois caras do Brooklyn,” o Swarmatron com o seu emaranhado de cabos e soldas produz um som peculiar e único. Os seus tons são controlados manualmente por uma fita em vez de um teclado; obter uma melodia das mais simples nele dá trabalho. Outra característica distinta desse sintetizador analógico é o que um dos seus osciladores faz: ele produz um cluster, um acorde cromático, dissonante que agrupa notas próximais, uma quebra das noções tradicionais de harmonia.

No filme, Atticus e Trent trataram o Swarmatron como um instrumento de orquestra: gravaram vários improvisos nele e depois os embrulharam numa única e densa massa sonora. O resultado é, nas palavras de Reznor, “um som de colméia,” estranho e hipnótico, que desafia a precisão digital dos sintetizadores contemporâneos. Eletrônico e ao mesmo tempo “sujo”, imperfeito, o Swarmatron presta identidade ao Zuckerberg do filme: um cérebro privilegiado à mercê de um analfabeto emocional.

O Swarmatron é uma peça fundamental no tema principal do filme, o “Hand Covers Bruise.” David Fincher nos conta que Ross e Reznor entregaram-lhe um lote com 16 esboços musicais inspiradas pelo roteiro de Sorkin, não atrelados a cenas específicas. O diretor estava ocupado ouvindo o seu mp3 player quando escutou a faixa 7; era um som que lhe remetia à música de György Ligeti usada em O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick. (Kubrick usou a música Ligeti anteriormente, sem pedir licença, em 2001: Uma Odisséia no Espaço). Chamou a atenção dele a justaposição do piano, com a sua melodia melancólica e infantil, e o som meio fora do tom, meio fora do tempo do Swarmatron, os seus clusters eletrônicos uma mímica da raiva borbulhando por baixo do exterior inexpressivo de Mark. “Desconfortável, mas melódico,” como bem definiu Atticus Ross, em entrevista. David Fincher decidiu que esse seria o tema principal do filme e que ele seria um tríptico. Ou seja: “Hand Covers Bruise” ocorreria em três pontos cruciais de A Rede Social: 1) o fora que levou de Erica, no início do filme; 2) a frustração e impaciência que Mark sente ao ser pressionado pelo advogado dos Winklevoss, durante o processo; 3) e a traição de Eduardo, na sede do Facebook. Cada vez que ressurge, o tema aperece levemente alterado, marcando os pontos da história onde Mark perde a sua inocência, paulatinamente. Em cada uma dessas instâncias o timbre do piano muda. Da primeira vez ele é bem nítido; já na terceira ele já está desbotado, uma memória distante do que aquele jovem CEO um dia foi: um estudante de computação excêntrico com um projeto brilhante na cabeça, pronto para provar o seu lugar no mundo.

“Tudo fluiu bem e não tivemos muitas situações difíceis,” disse Reznor sobre a trilha, até David Fincher fazer uma sugestão de última hora. O diretor queria que a dupla desse um toque contemporâneo à “In the Hall of the Mountain King” da ópera Peer Gynt (1876), para usar como a música de fundo na sequência da Regata Henley. A Regata Real britânica foi instaurada durante o reinado de Eduardo VII (1901-1910), e Fincher queria algo que fosse a cara do período; foi daí que ele pediu uma versão eletrônica “no estilo de Wendy Carlos” para a música do norueguês Edvard Grieg (1843-1907).

Para entender melhor a menção que Fincher faz à Wendy Carlos, é preciso apresentar, com os devidos cuidados, essa figura seminal na história da música eletrônica. Wendy ganhou as manchetes pela primeira vez em 1968 com o disco Switched-On Bach, tocando versões das obras do compositor barroco Johann Sebastian Bach (1685-1750) num Moog, um sintetizador popularizado por causa dela, inclusive. O disco foi um estrondo comercial: subiu ao top-10 da Billboard, vendeu mais de 500 mil cópias e ganhou três Grammys, um conjunção de fatores raríssima para um lançamento de música erudita. O pianista Glenn Gould – o grande responsável por “ressuscitar” Bach no século XX com o disco The Goldberg Variations (1955) – disse que essa era a melhor versão que já tinha ouvido na vida. Depois do sucesso estrondoso de Switched-On Bach Wendy foi à busca de novos desafios, dessa vez embarcando no cinema. Trabalhou nas trilhas de Laranja Mecânica (1971) e O Iluminado (1980), a primeira inspirando toda uma geração de músicos britânicos – de Cabaret Voltaire à Human League – a adotar o sintetizador como o seu principal (e às vezes único) intrumento. Outro ponto alto de sua notável carreira foi Tron: Uma Odisséia Eletrônica (1982), para qual Wendy compôs a música acompanhada da Orquestra Sinfônica de Londres.

Com essa referência na cabeça, Trent e Atticus levaram três semanas ininterruptas, com sessões de até 10 horas por dia, para finalizar a peça. Nos extras do DVD de A Rede Social, a dupla fala que já estava a ponto de se matar caso David não aprovasse a última versão deles. Reznor arrola pra si a culpa de demoraram tanto pra terminar; foi ele quem levou literalmente a referência de Wendy Carlos, direcionando-os para o caminho errado, uma paródia tragicômica de Switched-On Bach. Quando deram por encerrado as sessões, essa trabalheira toda valeu o esforço; "In the Hall of the Mountain King", v2010, é um dos pontos de destaque do filme.

Antes mesmo de o disco entrar em circulação, Atticus Ross e Trent Reznor liberaram o download gratuito de cinco músicas da trilha no Facebook. (Eles acabarem de fazer uma coisa parecida com a trilha de Os Homens que Não Amavam as Mulheres). Isso não só está de acordo com a postura anticorporativista de Reznor, notório crítico da indústria musical, como também dentro da ética libertária hacker – no ciberespaço, a informação tem que ser livre. Sempre.

Contrário às previsões do próprio David Fincher, a trilha de A Rede Social não só foi indicada como ganhou um Oscar e um Globo de Ouro, para o espanto de Trent Reznor. “O compositor de A Origem, Hans Zimmer, a quem tenho batalhado nos eventos da indústria cinematográfica o ano todo, me disse, ‘De muitas maneiras, eu espero que você ganhe porque isso ajudou a abrir o campo para textura na música original dos filmes,’” disse ele ao Hollywood Reporter.

O que começou como uma brincadeira num alojamento de Harvard na calada da noite virou uma empreitada bilionária, e tudo por causa de... Um fora? Carente de veracidade ou não, Sorkin e Fincher construíram uma história empolgante sobre empreendedorismo no século XXI, onde os jovens é que dão as cartas e remodelam o mundo dos negócios. E apesar de achar o Facebook “uma bosta” (ou pelos menos é o que disse para o Pitchfork Media, a bíblia indie / hipster), Trent Reznor e o seu parceiro Atticus Ross construíram para o filme uma trilha inovadora, talvez o arauto de uma nova era para a música Hollywoodiana.

O Cinema Detalhado não disponibiliza links pra download. Se quiserem ouvir a trilha, mandem uma mensagem pra mim que eu a envio via e-mail. Obrigado.

Logo abaixo, um vídeo do Youtube com Meleza Ryzik do jornal New York Times dando uma volta no estúdio de Trent Reznor:

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