Crítica: Fernão Capelo Gaivota (trilha sonora)

14 de julho de 2011 5 Comente Aqui!

Quando Richard Bach escreveu Fernão Capelo Gaivota (1970), deve ter intuído que seu livrinho faria sucesso. Não deve ter adivinhado o quanto: Fernão Capelo Gaivota foi o fenômeno editorial da década. O livro inspirou uma geração de bichos-grilos a aprofundar sua busca interior sem os excessos da contracultura. Os hippies aderiram em massa, e não só eles: de agentes do FBI a grupos de Alcoólicos Anônimos (AA), todos estavam antenados nas lições espirituais daquele passarinho iluminado.

“A vida tem que ser mais do que brigar por algumas cabeças de peixe,” reflete nosso protagonista. Fernão quer ser diferente. Não quer disputar com as outras gaivotas por restos de comida ou baixar a cabeça e seguir as leis do bando. Sonha em voar mais alto e mais rápido do que todo mundo. Seu isolamento voluntário, ideal para aprimorar suas habilidades aéreas, inquieta seus pais. Eles vêem no seu comportamento estranho um motivo de preocupação para todo bando. Um dia Fernão finalmente descobre que pode voar a mais de 100 km/h. “Como vou contar a eles? Como vou dizer?” se pergunta. “Descobri coisas que vão mudar nossas vidas. Há um mundo e tanto lá fora. Nenhum de nós jamais o viu e sentiu.” Fernão corre para mostrar o que aprendeu, mas dá tudo errado: seu vôo rasante sobre o bando põe todos em risco. Ele é convocado pelos velhos do bando e expulso.

Depois de vagar uma eternidade e quase morrer congelado, esquecido pelo mundo, Fernão é resgatado pelo seu novo bando. Entre eles está seu futuro mestre espiritual, Chang, e com a ajuda dele Fernão vira uma figura messiânica, o “filho da Grande Gaivota”, um guru pra uma nova geração de desgarrados. Fernão volta para espalhar a boa nova para seu velho bando, e lá encontra a resistência deles – novamente. O clima fecha de vez quando uma nova demonstração dá errada, feita por Francisco, um discípulo de Fernão que promete dar um vôo rasante sobre o bando a 320 km/h. Francisco desvia no último segundo de uma gaivota bebê que aparece do nada, e ele se espatifa a toda velocidade nas pedras. Quando tudo parece estar perdido Francisco “ressuscita”, com a ajuda de Fernão. Estarrecidos com o que acabaram de presenciar, os velhos lideram uma caça às bruxas contra Fernão e seus seguidores, e eles escapam por um triz da morte graças aos “super-poderes” de Fernão. Depois desse episódio Fernão se despede dos seus apóstolos e segue rumo a novos bandos, pregando seu evangelho gaivotês mundo afora.

A posteriori o sucesso espetacular de Fernão Capelo Gaivota não surpreende: foi o livro certo no momento certo. Nem sempre foi assim... É praticamente um milagre que ele tenha sido publicado. No limiar da pobreza e com cinco filhos pra criar, Richard Bach penou por três anos até achar um lar para Fernão Capelo Gaivota. Ele foi rejeitado por 26 editoras. A derradeira, MacMillan, lançou o livro sem verba publicitária. As resenhas iniciais não foram encorajadoras e nem as vendas. O velho boca a boca salvou Fernão Capelo Gaivota do ostracismo, e lentamente ele escalou a lista do Publisher’s Weekly, fisgando 1,8 milhões de leitores americanos ao final de 1972. O fenômeno Fernão Capelo Gaivota continua firme e forte no novo milênio: o livro já foi traduzido para 27 línguas e suas vendas superam 40 milhões de cópias ao redor do mundo.

O filme, que prometia ser um evento cultural, não repetiu o sucesso do livro. Fernão Capelo Gaivota marcou época, sim, mas da pior maneira possível. Foi descrito por Roger Ebert como “a maior enganação pseudo-metafísica do ano”. Na época a Time arrasou Fernão Capelo Gaivota e sua “teosofia vomitante”. Depois de desdenhar a sua “pieguice”, o resenhista do New York Magazine conclui que o filme “é o tipo de lixo que só uma gaivota pode gostar”. O filme continua a ser mencionado todo ano na lista dos piores já feitos. A maioria das críticas bate na mesma tecla: dar voz aos monólogos internos de Fernão é um caso de vergonha alheia, um dos piores da história. Dói na alma ouvir as gaivotas trocando aforismos “iluminados”. Não é por acaso que os nomes dos atores não aparecem nos créditos do filme, a pedido deles mesmos. Num determinado momento, o próprio Richard Bach processou Hal Bartlett por alterar suas idéias – o diretor reescreveu o diálogo sem sua permissão, ferindo a “integridade” do seu texto. Sei não. Acho mais provável que Bach não quisesse estar associado ao filme, e fez de tudo pra atravancar o lançamento do mesmo. Enfim, Fernão Capelo Gaivota é tão ruim que a Columbia Pictures só teve coragem relançá-lo em DVD em 2007, 30 e tantos anos depois de sua estréia malfadada.

Duas coisas (quase) salvam o filme. Uma delas é a fotografia. Logo no início o espectador é convidado a um banquete visual: a câmera mergulha entre as nuvens e sobrevoa os penhascos costeiros, captando a beleza turbulenta das ondas do mar quando elas se chocam nos rochedos. São tomadas aéreas de tirar o fôlego, filmadas na Califórnia e no Novo México. Jack Couffer, responsável pelas imagens belíssimas de Fernão Capelo Gaivota, foi indicado ao Oscar de “Melhor Cinegrafia”. A outra é a música de Neil Diamond.

Diamond estava num período de transição quando Fernão Capelo Gaivota pousou no seu ombro. Emplacando hits desde 1966, aos 32 ele já sentia a estafa de uma carreira prolífica o consumindo. Neil tinha dito à Life Magazine que queria se “aposentar” por um ano ou mais. Queria curtir sua casa em Malibu, se dedicar á família, mergulhar fundo nas sessões de psicoterapia, estudar piano clássico e composição, “ler grandes livros.” Isso foi em outubro de 1972. Hall Bartlett bateu na sua porta dois meses depois. O futuro diretor de Fernão Capelo Gaivota virou fã do cantor quando foi a um de seus dez concertos no Greek Theatre de Los Angeles. Essas apresentações renderam um disco ao vivo, o Hot August Night (1972), considerado uma virada na carreira de Neil.

Neil recusou o convite de Bartlett de cara. “Eu não tinha a mínima idéia de como fazer uma música do ponto de vista de uma gaivota,” se defendeu. Ele depois percebeu a oportunidade única que seria participar desse projeto e decidiu encarar o desafio. “Eu deduzi que ninguém teria um insight melhor do que eu, então por que não?” Neil deve ter se identificado com o personagem. Na casa dos 30, ainda tinha o ar daquele garoto introvertido e solitário dos tempos de escola, que não se encaixava em lugar nenhum. Na vida pública era tipicamente reservado, avesso ao circo midiático da indústria de celebridades. Os companheiros de banda comentavam as dificuldades dele até na hora de comunicar suas idéias. “Ele tinha um muro ao redor dele” disse o baterista Denis St. John para a revista Life, mas ressaltou que Neil já tinha “mudado radicalmente” na época em que ele e banda começaram a compor Fernão Capelo Gaivota. Neil era uma alma solitária que tinha traçado a ferro e a fogo seu lugar no mundo – que nem Fernão.

Para dar conta dessa experiência inédita, Neil Diamond foi se consultar com Henry Mancini e Lalo Schifrin, dois gigantes hollywoodianos. Mancini dominava o cenário musical de Hollywood na década de sessenta, tendo feito as trilhas de Pantera Cor de Rosa (1963), Bonequinha de Luxo (1961) e o tema do seriado Peter Gunn (1958-1961). Lalo, pianista de origem argentina, é conhecido pelo tema de Missão Impossível e pela sua associação com Clint Eastwood, por causa da série Perseguidor Implacável (Dirty Harry). Os dois tranqüilizaram Diamond: bastava ele se concentrar na música e o resto viria. O próximo passo foi retomar sua parceria com Lee Holdridge. Sob a direção e batuta do compositor haitiano ele gravou “Solitary Man” (1966) e “Girl, You’ll Be A Woman Soon” (1967) entre outros hits do seu repertório. Em Fernão Capelo Gaivota a voz e violão de Neil são enriquecidos pelos arranjos orquestrais de Holdridge, sua regência confiante dando uma dimensão extra ao pop/rock radiofônico do cantor.

Fernão Capelo Gaivota é uma fábula sobre evolução espiritual, e Neil dedicou seis meses de sua vida à um intenso exame de consciência para preparar a música do filme. De grande valia nesse momento foi a visita inesperada de um Hare-Krishna itinerante, que praticamente invadiu sua casa de praia. Neil acolheu o haribô, comeu de sua comida, leu seus livros, ouviu seus ensinamentos. Dessa comunhão mística nasceu “Be”:

“Be as a page that aches for a word / which speaks on a theme that is timeless / sing like a song in search of a voice that is silent / and the one God will make for your way.”

Para Neil essa estrofe foi a chave para a mensagem do filme: seja tudo o que pode ser. A cada novo ciclo da vida de Fernão, lá está “Be”: quando o avistamos pela primeira vez, pairando sob a linha do horizonte; quando ele volta para libertar o seu velho bando de suas ilusões mundanas; e quando ele sai à procura de novas almas carentes de instrução espiritual. Outras letras foram surgindo. Elas não faziam muito sentido de primeira; Diamond trazia elas pro seu terapeuta, e juntos ponderavam sobre seus significados cifrados, trazendo à tona aquelas verdades eternas e universais que jazem nas profundezas da alma. (Tô inspirado).

Depois de quase um ano de muita dedicação por Neil e sua equipe, Jonathan Livingston Seagull (1973) voou direto para o topo da Billboard, ficando em 2º lugar. O disco acabou por vender 2 milhões de cópias nos EUA e por quatro anos deteve o recorde da trilha sonora mais bem-sucedida da história, até ser atropelada por Embalos de Sábado à Noite (1977). No Globo de Ouro de 1974, Neil Diamond foi nomeado para o “Best Original Song” (“Lonely Looking Sky”) e levou o cobiçado prêmio de “Best Original Score”. E não só: em 2 de março, na noite dos Grammys, Neil também levou a melhor, deixando dois pesos pesados do rock – Paul McCartney (Com 007 Viva e Deixe Morrer) e Bob Dylan (Pat Garrett e Billy the Kid) – comendo poeira.

Nas palavras do seu autor, Fernão Capelo Gaivota é “a busca de uma pequena gaivota para alcançar a liberdade e sua luta para atingir a perfeição.” Quaisquer que sejam as falhas do filme em traduzir a beleza e simplicidade dessa mensagem, sua música marcou uma geração. Os belos arranjos de Lee Holdrige, a voz barítona e os acordes de Neil Diamond não envelheceram em nada na era digital, assim como o “Fernão Capelo” em todos nós, sempre em busca do nirvana.

O Cinema Detalhado não disponibiliza links pra download. Se quiserem ouvir a trilha, mandem uma mensagem pra mim que eu a envio via e-mail. Obrigado.

5 Comente Aqui! :

  • renatocinema disse...

    Fiz um treinamento de inteligencia emocional que recomenda a leitura do livro.....amei. Em seguida vi o filme........genial.


    Adoro as canções, a profundidade e a riqueza do filme e do livro Fernão Capelo Gaivota.


    Parabéns pela escolha.

  • Renata Biba disse...

    Livroooo perfeito... Richard tem um sensibilidade de poucos...
    Zé, adorei ler sua resenha, fico feliz por você ter nascido e por seu pai ser "sabido"
    hehehehe

    beijo! estamos ai...

  • Cristina Mota disse...

    Eu tenho esse filme e amo demais ele (Será que eu sou uma gaivota e não sei? hahaha).

    Sempre o vi como um filme bem alternativo, por isso nunca percebi os defeitos que os críticos veem.

    A trilha sonora dele é uma coisa sem palavras pra descrever, de tão linda.

    A única coisa que não gostei nele é algo bem bobo: a dublagem em português. Achei a voz que dubla o Fernão muito desagradável. Uma bobagem, né?

    Fora isso, amo demais esse filme. Eu o aceito exatamente como ele é.

    Fiquei sem entender bem. Você gostou desse filme ou não? Acho que sua opinião se misturou com a dos críticos que você descreveu e eu fiquei sem entender.

  • Zé Felipe Sá disse...

    Oi Cristina!

    Então... A minha especialidade aqui no Cinema Detalhado é trilhas sonoras, e esse é a minha guia quando escolho um filme pra resenhar; e a música que Neil Diamond fez pra "Fernão Capelo Gaivota" é impagável!

    Quanto ao filme... Acho o livro original difícil de adaptar pro cinema. Como fazer um filme (não desenho animado) inteiro com gaivotas conversando sobre transcendência espiritual? O resultado foi decepcionante pra mim. Acho bacana a mensagem do livro, mas aquela dublagem das gaivotas não funcionou pra mim, pelo menos.

 
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